Corria o mês de Abril do ano de 1911...

Corria o mês de Abril do ano de 1911, quando “os sócios do Sindicato Agrícola de Bombarral” decidiram construir a sua Caixa de Crédito Agrícola.

 

Corria o mês de Abril do ano de 1911, quando “os sócios do Sindicato Agrícola de Bombarral” decidiram construir a sua Caixa de Crédito Agrícola. A República tinha apenas nove meses e decreto de Brito Camacho (que organizou o Crédito Agrícola através das Caixas de Crédito Agrícola Mútuo) pouco mais de 30 dias.

A Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Bombarral (CCAMB) tornava-se, assim, uma das primeiras em todo o País a adquirir estatuto legal, ao abrigo da nova legislação da República. A 20 de Junho desse mesmo ano iniciou oficialmente a sua actividade.

Até aos nossos dias, e já lá vão 100 anos, a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Bombarral (a mais antiga em termos de funcionamento consecutivo) esteve sempre entre as que lideraram os processos de transformação ocorridos no sector, desempenhando um papel de destaque na dinamização e implementação das estruturas que formam hoje o movimento mutualista agrícola.

Passar em revista as dez décadas da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Bombarral é constatar uma história de sucesso e, em simultâneo, acompanhar o desenrolar de vidas dedicadas à causa do cooperativismo agrícola. É verificar o sucesso do desenvolvimento, só possível com iniciativa e trabalho, assentes em estruturas de apoio sólidas. Longo foi o caminho. Com altos e baixos, mas com alicerces. Nas lutas (sempre estimulantes) nas vitórias e nas (poucas) derrotas. A Caixa de Crédito Agrícola esteve sempre presente quando a lavoura do Bombarral precisou, não se limitando ao papel de receber depósitos e de conceder créditos. Sempre, ao longo de todo este tempo, foi uma referência. Um local de reflexão, de alertas, de apoio e de inovação, virada para os agricultores, servindo-os.

Os primeiros anos da CCAMB decorreram, naturalmente, à sombra do Sindicato Agrícola, dele dependendo e nele funcionando. Pode mesmo dizer-se que a Caixa neste período não terá sido muito mais que uma forma de canalizar verbas (poucas) para a organização-mãe.

Dessa fase existe pouca documentação relativa à actividade da CCAM. Os relatórios – quando os havia – não eram mais que um apêndice aos elaborados sobre a actividade do Sindicato. E este, de acordo, por exemplo, com a Gerência de 1911, vivera os primeiros anos do século com dificuldades.

Em Janeiro desse ano, com efeito, o Sindicato tinha apenas 42 sócios e a direcção abandonara funções em pleno mandato, deixando, como acusavam os directores eleitos em Assembleia Geral extraordinária, “o Sindicato ao abandono”.

A nova direcção, até final de 1911, consegui um notável incremento no número de associados, que cresceu para os 124, e negociou os preços do sulfato, do enxofre e sementes para os sócios, obtendo “significativas reduções” junto dos fornecedores.

Quanto à CCAMB, o relatório desse ano reservou-lhe algumas linhas: “Foi uma das mais belas conquistas do Sindicato, a inauguração da nossa Caixa de Crédito” (…) “que dentro de pouco tempo se tornará uma das mais alavancas de progresso agrícola”.

Em 1912, no entanto, a Direcção da CCAMB elaborou um pequeno relatório (o único que há notícia em toda a primeira década de vida da Caixa), relatório esse que se referia apenas, e de forma muito “arcaica”, às contas relativas à sua actividade nesse ano.

Esse documento registou, os nomes dos 20 sócios fundadores da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Bombarral (Júlio Tornelli foi o número 1) e de 84 sócios ordinários. Um total, portanto, de 104 associados do Bombarral, Óbidos, Casal das Barreiras, S. Mamede, Pó  Columbreira, Carvalhal, A-dos-Negros, Sanguilhal, Olho Marinho, Barrocalvo, Amoreira, A-dos-Ruivos, Sobral do Parelhão, Vale de Pato, Quinta do Carvalhedo, Salgueiro, Casal da Cotovia, Sobral da Lagoa, Casal do Bom Vento, Casal Fieis de Deus, A-dos-Francos, Famões, Quinta do Vale, Vermelha, Traz do Outeiro, Columbeira.

Os anos seguintes, apesar do entusiasmo e dedicação de várias direcções, não foram fáceis e o crescimento foi lento. A República dava os primeiros passos, a I Guerra (1914-1918) trouxe dificuldades e as mudanças várias registadas no País a nível político criaram indefinições que atingiram todos os sectores da vida económica. Acresce que as Caixas de Crédito, de uma forma geral, eram bastante frágis sob o ponto de vista organizativo.

A Caixa do Bombarral não fugia à regra geral. E, diga-se, em abono da verdade, documentos posteriores da própria CCAMB continham bastantes críticas à gestão desses tempos, que alegadamente, por menos correcta, afastou inúmeros associados.